





Bernardo Camara
Com cerca de 500 animais, alguns raros e em extinção, o Zoológico de Niterói (ZooNit), na região metropolitana do Rio de Janeiro, está passando por dificuldades. Mantido com o dinheiro arrecadado na bilheteria – que cobra apenas R$ 4 – e por um repasse da prefeitura, que diminuiu a verba desde o início do ano, por contenção de despesas, o ZooNit precisa urgentemente de recursos. Hoje, há 14 funcionários e alguns voluntários que improvisam como podem para dar um mínimo de dignidade aos bichos. Chegando ao ZooNit, nossa reportagem encontrou dois policiais militares do Batalhão Florestal entregando alguns pássaros presos em gaiolas. “É da fauna silvestre, foram apreendidos em uma residência”, explicou um deles. A cena é comum. Diariamente, eles recebem animais resgatados fora de seus habitats, como tartarugas verdes, corujas e pingüins.
O principal trabalho desenvolvido pelo zoológico é o de reabilitação: após receberem os cuidados necessários, eles são devolvidos para suas “casas”. Veterinários e especialistas fazem doações que pesam no bolso. Eles se sentem sobrecarregados e pedem apenas melhores condições de trabalho.
Para dar conta de tantos animais recebidos, o veterinário responsável, Thiago Muniz, trabalha de domingo a domingo, pois só tem o apoio de mais um profissional. Com horário de trabalho de 8h às 14h, diz que já chegou a ficar até as 22h pela sobrecarga de trabalho. “A gente faz por prazer, consegue manter a duras penas. Mas se pudesse trabalhar com condições satisfatórias, seria melhor”, disse, enquanto cuidava de um pássaro ferido. Your browser may not support display of this image.
Muniz conta que a redução de verba da prefeitura tem dificultado bastante o trabalho e prejudicado principalmente os animais. “Uma vez, eu estava no meio de uma cirurgia em um mico, quando a luz foi cortada. Precisei ficar com o celular ligado para enxergar o que estava operando”, recorda. “Não é fácil, mas a gente dá um jeito, se dispõe a continuar”.
Giselda Candiotto, presidente do ZooNit, conta que desde maio de 2006, a prefeitura reduziu em 40% o valor repassado para o zoológico. “Conseguimos nos manter até dezembro de 2006, quando diminuíram mais 10%. Aí, entramos em crise”, disse. “Nós tínhamos a receita ideal, mas agora precisamos diminuir o ritmo, as obras, e esperar patrocínio”, lamenta.
O presidente da Niterói Empresa de Lazer e Turismo (Neltur), Jose Mauro Haddad que faz o repasse de verba para o zoológico, explica que em 2005 a doação era de R$ 12 mil. “Passamos para R$ 30 mil, pois a Giselda disse que precisaria fazer algumas obras, a pedido do Ibama e do Ministério Público. Mas, no meio de 2006, a prefeitura começou a passar por dificuldades orçamentárias. Fixamos em R$ 18 mil, mas no fim do ano, houve dificuldades maiores ainda e tivemos que passar para R$ 15 mil”, explica.
Haddad deixa claro que a prefeitura não tem obrigação de sustentar a o zoológico, já que ele é administrado por uma instituição privada – a Fundacão Jardim Zoológico de Niterói. “Ajudamos porque é importante para o turismo. Damos R$ 15 mil com um esforço tremendo”, afirma. Giselda não discute a declaração, mas pede bom senso. “Eles não têm obrigação mesmo de nos sustentar. Mas é uma questão de consciência, pois são animais resgatados”, diz.
O presidente da Neltur cobrou ainda a participação do estado, que nunca se prontificou a ajudar. “De todos os animais recolhidos no Rio, o único zôo os acolhe é o zoológico de Niterói, por ser o que mais reintegra os bichos. O ZooNit está atendendo a todo o estado, e não recebe um centavo”, criticou.
Há dez anos no ZooNit, o tratador de animais Luciano Firmino diz que a situação é sem precedentes e reafirma que os maiores prejudicados são os bichos. Mostrando o lugar onde ficam os macacos-pregos, aponta para o chão com restos de comida. “Antes, eles tinham frutas o dia inteiro. Agora tivemos que reduzir a quantidade e eles estão comendo até casca de laranja e banana”, lamenta.
Firmino mostrou também as telas que envolvem o local onde ficam os tucanos. Enferrujadas, ele diz que o Ibama já cobrou suas trocas, pois as aves podem até morrer se ficarem passando o bico nas telas, mas que não há dinheiro para mudar tudo de uma vez. “Vamos tentando fazer as modificações pouco a pouco, do jeito que dá”, diz. “Nunca vi isso aqui passar tanta necessidade quanto neste ano”.
Iniciativa
Indignados com a precariedade do lugar, um grupo de voluntários tentam mudar o quadro. Uma das primeiras a se mobilizar, a comerciante Aparecida Negreiros, afirma que a preocupação atual é divulgar o problema, para que outras pessoas possam contribuir. “Precisamos arrecadar recursos. As pessoas podem ajudar com medicamentos, alimentos, dinheiro”, disse, acrescentando que já houve uma melhora através de doações. “As pessoas precisam saber o que está acontecendo”.
Junto com Aparecida, algumas estudantes de desenho industrial estão desenvolvendo um projeto de enriquecimento ambiental, estudando algumas modificações nos locais onde ficam os animais. A intenção é readaptar as jaulas para dar a eles um maior conforto e usar materiais alternativos, como caixas de ovos, para isolamento acústico.”A gente tem que melhorar esse lugar”, diz a comerciante.
A preocupação dos funcionários com os bichos é tanta que o lugar é referência em cuidados, mesmo nas condições atuais. Até cachorros e gatos são deixados no local para tratamentos. Apesar da sobrecarga, o veterinário Thiago Muniz não rejeita nenhum deles e já cuidou até de um pombo ferido. “Somos todos apaixonados pelos animais”, explica Giselda.
Quem puder colaborar com o ZooNit, pode entrar em contato pelo telefone (21) 2721-7069, ou fazer uma visita. O endereço é Alameda São BoaVentura 770, Fonseca, Niterói.
Fonte: SRZD